O vírus que escancarou os níveis de desigualdades no país

Nesse momento em que o mundo se veste de dor e preocupação, a sociedade – bem como aqueles que nela habitam – colocada como ponto frágil em meio a tantas outras, fez eclodir faces outrora esquecidas, mas jamais desconhecidas. Faces que revelam o lado menos noticioso e valorizado, sem audiência, contudo, indispensável para as estatísticas e estratégias. O vírus que poderia chegar, chegou. Que poderia atingir, atingiu. Que poderia matar, estar matando. E que poderia revelar, revelou: já éramos infectados e doentes há tempos.

Agora, é preciso falar daqueles que já vivem distanciados por natureza, seja por receio, obrigação ou falta de opção. É necessário enxergar onde a comunicação não penetra, onde a única rede social são os “irmãos” que estão dispostos às mesmas condições de vida. Se antes havia tempo para manobras, motivo pelo qual nunca entendíamos o por que de tanta demora – mas, que ainda causa dúvidas – agora não há mais.

Imaginar que podíamos através de um momento ruim otimizar nossos piores cenários sociais seria um pensamento muito astucioso. Propor que pequenas mudanças fariam diferenças gigantescas não funcionou dessa vez. Antes, tínhamos moradores de rua com fome, frio, sem informação e angustiados. Agora, temos moradores de rua com fome, frio, sem informação, angustiados e usando máscaras e álcool em gel. Utopia?! “Ficar em casa”? Que casa? A casa de todos, certamente. A rua!

Aliás, não é preciso impor medidas ou ordens quando o cenário vivido já é suficientemente triste e de total desespero. Medo? Será que essa seria uma opção para quem já não tem mais pelo o que optar? Em tempos de isolamento social e resiliência humana, o fato é que as ruas continuam cheias de pessoas que dariam tudo por uma quarentena do abandono e distanciamento dos julgamentos, bem como a falta de assistência.

Que a verdade seja dita. Estar em uma sociedade que respira esquecimento e cultiva a tradição de ter memória curta parece cada vez mais significar que também estaremos longe de um futuro presente distante de um passado tão nosso. E, por mais que usemos do bom senso, da crença, do amor e fraternidade, é questionável avançar em uma espaço em que a confiança já não jaz. Queremos continuar e acreditar que as coisas voltarão a seu estado normal, são e mudarão. Afinal, embora não saibamos como parte das coisas funcionam, sabemos que elas existem. Sem maquiagens, por favor!

por Jotta Lopes – colunista do Papo Político

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