Vacina de RNA mais uma promessa contra a covid-19

“Se uma vacina de RNA der certo, for segura e aprovada, vai representar um avanço na ciência de produção de vacinas bastante grande. Vai permitir utilizar essa tecnologia para outras doenças também”, afirma a infectologista Cristiana Toscano, da SBIm (Sociedade Brasileira de Imunizações) e integrante do grupo de trabalho de vacinas para covid-19 da OMS (Organização Mundial da Saúde).

Segundo ela, pelo menos 20 grupos, dentre os 150 que estão tentando desenvolver vacinas para o novo coronavírus, estão utilizando esse tipo de tecnologia.

A pesquisadora Luciana Cezar de Cerqueira Leite, do Laboratório de Desenvolvimento de Vacinas do Instituto Butantan, explica que existe pouca experiência com a vacina de mRNA (RNA Mensageiro) e, por esse motivo, só será possível concluir sua eficácia após a terceira fase de testes clínicos.

“Temos muitas dúvidas, não sabemos se vai funcionar, se vai ser estável e se ela tem capacidade de proteger, se tem capacidade de induzir a resposta imunológica protetora e com memória.”

Mayra Moura, diretora da SBIm e mestre em tecnologia de imunobiológicos, afirma que a principal vantagem na utilização desse tipo de tecnologia é que o tempo de produção é menor. “Quando se produz uma vacina com vírus atenuado, por exemplo, é preciso cultivar esse vírus em laboratório e depois fazer o enfraquecimento dele, isso leva tempo. Na vacina de mRNA o corpo fará essa produção”.

Segundo Luciana, especula-se que cada lote de vacina de mRNA deve demorar cerca de um mês para ser produzido, enquanto vacinas comuns podem ter um tempo de produção de até 5 meses.

Como funciona a nova tecnologia

As especialistas explicam que, para produzir esse tipo de vacina, a molécula de RNA é produzida em laboratório e aplicada no paciente. Essa molécula entra na célula da pessoa por diferentes mecanismos e a célula terá a informação necessária para produzir uma das proteínas que compõem o vírus.

Assim, o sistema imunológico identifica essa proteína como um patógeno, um corpo estranho que precisa ser combatido, e inicia uma resposta imunológica.

A pesquisadora do Instituto Butantan explica que já foi comprovado que esse mecanismo funciona. As dúvidas são em relação à resposta imunológica gerada por ele. “Não sabemos se a produção de proteínas pelo corpo vai ser suficiente e se vai gerar uma resposta imunológica que realmente proteja o corpo do vírus e por quanto tempo vai proteger.”

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Luciana explica que essa técnica é relativamente nova e por isso ainda não foi utilizada. “Aprendemos a produzir o RNA em laboratório, mas essa é uma molécula muito instável, então ainda estávamos aprendendo os processos para fazer com que ela se estabilize. Além disso, precisamos buscar mecanismos para que o RNA entre nas células da pessoa que recebe a vacina.”

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A pesquisadora explica ainda que, por ter poucos componentes, esse tipo de vacina tem a possibilidade de produzir menos reações adversas. “Não tem nenhuma informação comparativa com outras vacinas, mas ela está abaixo dos níveis pré-determinados de preocupação com reações adversas.”

Outra vantagem desse tipo de vacina é que ela não requer que o vírus seja manipulado. “Cientistas na China divulgaram a sequência genética do SARSCoV-2 em janeiro deste ano, o que contribuiu para o início das pesquisas para uma potencial vacina em todo o mundo”, afirma Márjori Dulcine, Diretora Médica da Pfizer Brasil, uma das empresas que está trabalhando com esse tipo de tecnologia.

Previsões

Segundo a diretora da Pfizer, a empresa deve ter os dados da primeira fase dos estudos no início de junho. “A partir deles, podemos avançar para estudos expandidos, que podem permitir o uso emergencial ou aprovação acelerada entre outubro e novembro.”

Mayra explica que o processo acelerado de testes não é prejudicial, pois nenhuma etapa é pulada. “Em condições normais, as vacinas demoram, pois se espera o resultado positivo de uma fase para fazer os investimentos necessários para aumentar a escala para a próxima etapa. Nesse caso emergencial, enquanto realizam uma etapa, as empresas já se preparam para a próxima.”

Para ela, dificilmente uma vacina estará pronta até janeiro de 2021. “É difícil dizer, tudo pode acontecer, mas acredito que ainda no primeiro semestre do próximo ano.”

por R7 sob supervisão de Deborah Giannini

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