Senador exibe vídeo com falas de governadores favoráveis ao uso da cloroquina

Senador Marcos Rogério (DEM-RO) exibiu vídeo com falas de governadores favoráveis ao medicamento datadas de abril, um mês após Mandetta liberar uso em hospitalizados. Evolução dos estudos fez entidades lançarem alerta contra o uso; veja cronologia das pesquisas e orientações sobre uso da cloroquina.

O senador Marcos Rogério (DEM-RO) exibiu, durante depoimento do ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello na CPI da Covid nesta quinta-feira (20), um vídeo que compilava frases de vários governadores sobre o uso da cloroquina ou da hidroxicloroquina contra a Covid-19.

Entretanto, os vídeos foram gravados no início da pandemia, em abril de 2020, e tratavam da utilização da droga sobretudo em pacientes hospitalizados. Ao menos seis dos sete estados citados no vídeo suspenderam a permissão de uso ou negaram que tenham dado orientações favoráveis (leia mais abaixo).

Por sua vez, desde aquela época, o governo federal ampliou e mantém até atualmente a indicação de uso, inclusive como tratamento precoce, embora a ineficácia já tenha sido comprovada.

Nos primeiros meses da pandemia havia a hipótese — investigada em estudos clínicos — de que a cloroquina ou a hidroxicloroquina como medicamentos que poderiam ser eficazes no tratamento da Covid, principalmente se utilizados junto com a azitromicina, um antibiótico.

À época, desde março, o Brasil passou a autorizar o uso do medicamento para pessoas hospitalizadas. Com o avanço das pesquisas, ainda em maio de 2020 já havia posicionamento da Organização Mundial da Saúde (OMS) alertando contra o uso dos medicamentos na pandemia. A FDA (Food and Drug Administration, espécie de Anvisa americana) e a Organização Pan-Americana de Saúde (Opas) logo na sequência desaconselharam o uso (veja cronologia abaixo).

Posicionamento dos estados
O G1 entrou em contato com os governos de Alagoas, Bahia, Maranhão, Pará, Piauí e São Paulo.

Em nota, a Secretaria de Estado da Saúde (SES) do Maranhão apontou que “o vídeo citado foi editado e a fala do governador retirada de contexto” e ressalta que o médico é responsável por prescrever medicamentos. “Portanto, o governador jamais prescreveu qualquer medicamento”, informou a SES. “O protocolo adotado para tratamento do paciente da Covid-19 na rede de saúde de gestão estadual segue recomendações científicas.”

A Secretaria de Estado de Saúde Pública do Pará (Sespa) informou que a nota técnica citada no vídeo foi revogada ainda em 2020 “no mesmo período em que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária, a Anvisa, anunciou que não há tratamento preventivo padrão para a Covid-19”.

“A Sespa não realiza a distribuição destes medicamentos para o tratamento da Covid-19”, informou o órgão em nota.

Em São Paulo, a secretaria estadual de saúde rebateu a associação. “Em SP, os gestores de saúde deliberaram pela não recomendação do uso do medicamento em casos leves, moderados ou graves de COVID-19 devido à insuficiência de evidências sobre a eficácia”, informou em nota.

Citado diretamente pelo senador, o infectologista David Uip, ex-coordenador do Centro de Contingência do Coronavírus de SP, disse que “jamais defendeu a distribuição ou uso indiscriminado” da cloroquina na rede pública do país.

Em Alagoas, a Secretaria da Saúde confirma que protocolo que indica a cloroquina existe e que segue em vigor. Entretanto, o uso é liberado apenas para pacientes hospitalizados, desde que haja prescrição médica.

Já a Bahia informa que deixou de recomendar o uso de cloroquina para tratar a Covid em julho do ano passado.

O governador do Piauí, Wellington Dias, afirmou ao G1 que, ao contrário do que foi dito, ele “não está receitando cloroquina”, mas afirmando o compromisso do Governo do Estado de manter o abastecimento de medicamentos nas farmácias dos hospitais.

Trajetória: dos estudos preliminares até a recusa
Inicialmente, dois estudos apontaram para a possibilidade de a cloroquina ser eficaz contra o Sars-Cov-2: um foi feito pelo médico e microbiologista francês Didier Raoult e colegas. O outro foi liderado pelo também francês Benjamin Davido, sem a participação de Raoult nem nenhum autor em comum com a primeira pesquisa. Ambos foram retratados após descoberta: isso significa dizer que eles perdem a validade científica e não podem mais ser citados em outros artigos.

Em meio à publicação das pesquisas francesas, várias outras, feitas ao redor do mundo, apontavam para resultados opostos: nem a cloroquina, nem a hidroxicloroquina, nem a azitromicina eram eficazes no tratamento da Covid-19.

Ao mesmo tempo em que as pesquisas eram publicadas, diretrizes do Ministério da Saúde, Organização Mundial de Saúde (OMS) e outras entidades eram atualizadas.

Linha do tempo
Veja, abaixo, a cronologia:

MARÇO DE 2020 – O estudo do francês Didier Raoult foi publicado em março. Na época, o médico e colegas reuniram 42 pacientes para o estudo. Desses, 26 deveriam estar no grupo que receberia a hidroxicloroquina e os outros 16, no grupo que não receberia. Só que 6 pacientes que estavam no grupo da hidroxicloroquina foram excluídos da análise: desses, 3 foram para a UTI; um morreu; um decidiu deixar o hospital depois de ser incluído no estudo; e o outro parou o tratamento por causa de náusea. Mesmo assim, ao apresentar os resultados da pesquisa, os médicos afirmaram que a hidroxicloroquina foi associada “significativamente” à redução ou desaparecimento da carga viral em pacientes com Covid-19 – e que o efeito do medicamento era reforçado pela azitromicina.

No Brasil, em 25 de março de 2020, o Ministério da Saúde, sob a gestão do então ministro Luiz Henrique Mandetta, autorizou o uso da cloroquina e da hidroxicloroquina para casos graves do coronavírus. À época, Mandetta alertou que o uso não era recomendado fora do ambiente hospitalar, já que os medicamentos poderiam provocar arritmia cardíaca.

Em 27 de março, a OMS iniciou pesquisa com 50 países sobre a eficácia de 4 medicamentos contra o coronavírus, incluindo a cloroquina e a hidroxicloroquina;

Já em 30 de março, a FDA liberou o uso da cloroquina e da hidroxicloroquina para pacientes com Covid grave. No dia seguinte, em 31 de março, a OMS informou o uso de medicamentos “off-label” no tratamento da Covid em alguns países e alertou para a falta de comprovação científica de eficácia de tais remédios.

Os estudos da OMS também começaram em março de 2020. No dia 31 daquele mês, a Organização informou o uso de medicamentos “off-label” no tratamento da Covid em alguns países e alertou para a falta de comprovação científica de eficácia de tais remédios.

ABRIL DE 2020 – No início de abril, vários cientistas já criticavam a metodologia do estudo de Didier Raoult e também o grupo reduzido de pacientes. Eles alertaram sobre a necessidade de análises mais aprofundadas e sobre os efeitos colaterais do remédio, como arritmia cardíaca. Além disso, apontaram que um dos autores da pesquisa é também editor-chefe da revista onde ela foi publicada.

Em 8 de abril de 2020, procurada pelo G1, a OMS diz que 74 países estavam fazendo testes com a hidroxicloroquina;

No Brasil, em 1º de abril de 2020, o Ministério da Saúde divulgou o protocolo “Uso da cloroquina como terapia adjuvante no tratamento de formas graves do Covid-19”. Ele previa o uso para pacientes hospitalizados com formas graves da doença e em casos críticos.

MAIO de 2020 – No início de maio, um estudo feito nos Estados Unidos mostrou que a hidroxicloroquina não melhorou o quadro de pacientes hospitalizados com Covid-19.

Em 11 de maio, Davido e colegas publicaram uma segunda pesquisa, que apontava para a possibilidade de tratamento da Covid com o combo hidroxicloroquina + azitromicina. No estudo, de 132 pacientes internados na enfermaria com Covid, 45 receberam a combinação de hidroxicloroquina + azitromicina por um período igual ou maior a 48 horas. Dias depois de ser divulgado, entretanto, o estudo de Davido foi retirado da plataforma de pré-prints (estudos ainda em prévia, sem revisão por outros cientistas) onde havia sido divulgado.

No dia 14 de maio, uma nova contradição: uma pesquisa chinesa apontou que a hidroxicloroquina não funcionava em pacientes com casos leves e moderados da Covid-19.

No dia 20 de maio, Davido e colegas pediram que o estudo que apontava os medicamentos como eficazes fosse retratado.

No Brasil, no mesmo dia, em 20 de maio de 2020, o Ministério da Saúde divulgou um novo protocolo para liberar o uso da cloroquina e da hidroxicloroquina no Sistema Único de Saúde (SUS) até em casos leves da Covid-19. E a OMS disse que cloroquina pode causar efeitos colaterais e não tem eficácia comprovada no tratamento da Covid-19.

Um dia antes, em 19 de maio de 2020, o diretor da Opas, braço da OMS na América Latina, disse que ‘não há evidências para recomendar cloroquina e hidroxicloroquina contra a Covid-19’.

JUNHO DE 2020 – Em 3 de junho de 2020, uma pesquisa feita por cientistas americanos e canadenses mostrou que a hidroxicloroquina também não funcionava para prevenção da Covid-19.

No dia 15 de junho, a FDA cancelou a autorização de uso de cloroquina e hidroxicloroquina no tratamento da Covid-19. A entidade afirmou que não é mais razoável acreditar que as formulações orais de hidroxicloroquina e de cloroquina possam ser eficazes”.

Em 17 de junho de 2020, a OMS anunciou que o estudo “Solidarity Trial”, que investiga um tratamento eficaz e seguro contra a Covid, estava interrompendo as pesquisas com hidroxicloroquina. Naquele dia, a OMS publicou uma revisão afirmando “evidência muito baixa” de que a hidroxicloroquina seja eficiente contra a Covid-19, além de “poder resultar em um risco aumentado de eventos adversos durante os dias 14-28 em comparação com o tratamento padrão” e resultar “em pouca ou nenhuma diferença na mortalidade em comparação com o tratamento padrão”.

Um dia depois da suspensão da OMS, entretanto, o Ministério da Saúde ampliou o uso dos medicamentos:

“A partir de agora, as orientações para manuseio medicamentoso precoce de pacientes com diagnóstico da Covid-19 também se estendem a crianças e gestantes, que passaram a fazer parte dos grupos de risco. Esses medicamentos são indicados para casos leves, moderados e graves”, disse a pasta, em nota.

JULHO DE 2020 – Em julho, uma pesquisa feita nos Estados Unidos reforçou o achado de que a hidroxicloroquina não funcionava em casos leves de Covid. No mesmo mês, um ensaio coordenado pela Universidade de Oxford associou a hidroxicloroquina ao agravamento de casos de Covid-19 e mortes.

No dia 10 de julho, a OMS reafirma que não conseguiu “demonstrar um benefício claro’ do uso da cloroquina; Ainda no mesmo mês, no dia 22, dois novos estudos publicados na ‘Nature’ mostraram que a cloroquina e hidroxicloroquina eram ineficazes para Covid.

SETEMBRO DE 2020 – Em setembro, Didier Raoult foi denunciado na França por promoção inadequada da hidroxicloroquina.

OUTUBRO DE 2020 – Em 15 de outubro, a OMS reafirmou a ineficácia da hidroxicloroquina para Covid em um relatório.

JANEIRO DE 2021 – Em janeiro deste ano, Raoult e os outros autores da primeira pesquisa, de março de 2020, escreveram uma nova análise em resposta a um artigo que apontava que a literatura científica disponível não apoiava o uso de hidroxicloroquina e azitromicina em pacientes com Covid. Os franceses “concordam com colegas que excluir 6 pacientes de nossa análise pode ter enviesado os resultados”. Eles refizeram a análise com os 42 pacientes que deveriam ter entrado na primeira versão do estudo. Segundo os pesquisadores, a necessidade de suporte de oxigênio, transferência para UTI e óbito não diferiu significativamente entre os pacientes que receberam hidroxicloroquina com ou sem azitromicina e em controles com apenas cuidados padrão (sem nenhum dos dois remédios).

MARÇO DE 2021 – Em 1º de março deste ano, a OMS divulgou novas diretrizes, apontando que a hidroxicloroquina não deveria ser usada como prevenção contra a Covid.

Em 23 de março, a Associação Médica Brasileira (AMB) mudou de posicionamento sobre a hidroxicloroquina e disse que o medicamento – junto com outros do chamado “kit Covid” – deveria ser banido do tratamento da Covid-19.

MAIO DE 2021 – Em maio deste ano, o Ministério da Saúde apagou do site oficial uma nota na qual recomendava, entre outras coisas, o uso da cloroquina contra a Covid-19. Segundo a pasta, a orientação seria submetida a nova análise e atualizada. O documento foi elaborado em 2020, durante a gestão de Pazuello. Após apagar a nota, O TCU determinou que o ministério explique por que apagou.

Veja o vídeo:

por G1

foto: Reprodução

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